Thiago para o12 e amigos.

sexta-feira, 10 de abril de 2009


Este texto faz parte de mais um dos procedimentos de estudos que o Coletivo o12 vem implantando na sua maneira de convivência e em seus exercícios de construção de conhecimento, os quais entendemos e acreditamos que nos direcionam e nos encaminham ao imensurável prazer da conquista e da prática de nossa deliciosa autonomia.


No último sábado dia 04, o Coletivo o12 realizou a segunda edição do projeto “Corpo e Metáfora”, criado para exercitar a prática dos processos de criação de modo individual para que desde já o coletivo vá sendo composto e entendido pelas qualidades particulares e desejos de cada um que se faz presente e que demarca a maneira como nosso corpo coletivo se move.

As palavras abaixo se referem as impressões que tive, sensações que senti e a maneira que percebi o que os solistas tornaram público como suas propostas sobre ‘Controle”, o assunto selecionado pelo coletivo como indispensável e urgente em suas manifestações artísticas.

LUCAS AMORIM vem com uma metáfora muito clara sobre o aspecto de controle que escolhe abordar, seu corpo sentado em meio a milhares de peças de “Lego” e seu estado corporal extremamente tranqüilo, propõe uma atitude no corpo que parece alguém muito decidido e disposto a executar a ação que se propõe independente das interferências, é como se o propósito de encaixar as peças e criar estruturas, imagens e objetos fosse maior e não permitisse que nada o perturbasse. Completamente mergulhado no universo que cria, Lucas organiza a seu modo os objetos com uma tranqüilidade absoluta, como se soubesse exatamente o que faz e onde vai chegar, manipular aqueles objetos e modelar como queria todo o ambiente que o cercava era tarefa simples e que executava com completa habilidade. Uma boa analogia poderia ser a de um professor que exercita sua autoridade em sala de aula de forma a modelar as idéias e pensamentos que encontram-se desmontados, esperando alguém hábil o suficiente para montá-los. Em sua criação Lucas Amorim nos propõe observar os desenhos lógicos dos ambientes que nos cercam e nos mostra como devemos de certa maneira nos mover de acordo com aquilo que foi organizado por algo ou alguém a nossa volta, uma espécie de controle passivo, um controle morto, em não atividade, mas sempre presente.
Já na proposição de RAFAEL BRICOLI, podíamos encontrar uma imensa puerilidade, a literalidade objetiva de sua criação, porém cheia de poesia, nos comunicava claramente sua observação sobre controle. Ao botar uma coleira num aquário no qual continha um peixe, Rafael nos mostrava o controle de um ambiente onde habitava um sistema vivo, sua metáfora propunha-nos a idéia de um ambiente inteiramente controlado, mas onde o seu habitante desconhecia a sensação de controle e parecia estar livre pra ir aonde quisesse, uma liberdade limitada pelo controle quase invisível, um limite imposto com textura transparente como as paredes do aquário, de modo que se cria uma mentirosa impressão de que ver além do vidro é estar depois dele. Toda essa sutileza e poesia se vê ameaçada quando as situações vão se variando, em algum momento ao sacar do bolso um osso Rafael nos remete ao universo de domesticação, o mais chocante é como as situações compõem a cena final de seu solo, Rafael segurando a corrente que envolve o aquário que contém o peixe que nunca salta do aquário atrás do osso, como se achasse que a qualquer momento nadando em frente avançaria os limites impostos pelo vidro. Os assobios, o estralar de dedos, nem o jogar do osso era suficiente para estimular o peixe, talvez por todo o aquário estar controlado pela coleira que o envolvia e que o detinha a expandir e proporcionar movimentações mais exuberantes.
Por mais que isso não tenha desqualificado o trabalho, o único elemento que não contribuiu para uma boa percepção da proposta foi a luz branda demais e quase apagada, propondo um esforço desnecessário ao público para perceber o que se propunha, talvez uma luz que saísse debaixo do aquário poderia nos dar a sensação de perceber mais o que já imaginávamos estar vendo.

A crueza do corpo-cenário de TATI ALMEIDA se contrapunha a todos os outros solos e ambientes propostos, era somente o corpo e a luz que recortava a nossa percepção sobre ele, e a única diferença/informação que nascia daquela proposta eram as movimentações extremamente minuciosas e dosadas, tínhamos uma corporeidade delicada, sem excesso, era como se na sua movimentação estivesse traduzido uma idéia de controle, mas não um controle castrador, era um tipo de autocontrole, onde cada músculo ou cadeia muscular estivesse coeso ao pensamento, era um corpo sem descontroles, com clareza e pureza.
Na simplicidade dos movimentos Tati trazia a melhor informação de suas coleções, haviam sido selecionadas e publicadas em poucos movimentos, pouco engajamento, numa atmosfera de intensa consciência do corpo, o corpo como controlador de si mesmo, de suas atitudes, de suas necessidades de se mover, de seus esforços necessários, um corpo que nos mostrava o que o movia e não como se movia, uma dança fiel e verdadeira, despreocupada com variações dinâmicas no seu decorrer e clímax em seu desfecho. Uma dança para ser observada a olho nu.

Toda a inexperiência de MARI MENDES, foi transformada em pura coerência na cena. Sua metáfora era uma das mais intrigantes e que causavam mais curiosidade ao expectador. A luz vermelha que recortava o seu enigmático cenário trazia uma sensação de estranhamento, parecia um outro tempo encontrado naquela realidade. Havia uma mesa onde estava um tabuleiro de xadrez e duas cadeiras posicionadas para supostos jogadores, numa Mari estava sentada, mas a não linearidade de sua criação propunha um leve desconforto, a provocação de sua metáfora já começava quando ao invés de outra pessoa no lugar de seu oponente encontrávamos um carrilhão (relógio com pendulo e números romanos muito utilizado na Europa no período de 1600 a 1700).

Em sua criação Mari Mendes nos oferece a idéia do controle do tempo sobre qualquer situação, o tempo como uma condição de controle, como algo legal, que rege o andamento ritmado de nossas ações, seja pensar sobre qual a melhor maneira de mexer o pião no tabuleiro ou escolher qualquer lugar pra movimentar a peça sem pensamento lógico algum. Nas situações criadas e nas maneiras que Mari reportava o olhar para o relógio, entendíamos o tempo como seu adversário, mas algo de diferente acontecia quando um posicionamento outro de seu corpo era tomado, de momento em momento Mari se levantava e com olhar reflexivo dava uma volta em torno da mesa, sempre em sentido horário, como se estivesse respeitando as leis impostas por seu poderoso oponente, ao sentar novamente depois de uma “rodada” Mari parecia ter estudado um percurso lógico, um pensamento em sentido único e parecia mais pronta a cada jogada para lidar com o raciocínio do seu adversário/controlador.

A inteligência de sua criação não se continha nessas ações descritas, mas sim ao modo que todas as informações foram organizadas para que o sentido se tecesse e a eficiência de sua comunicação nos atingisse. Ainda não pude deixar de observar o talento com que Mari resolveu toda sua insegurança em cena, seus olhares de canto, as unhas sendo roídas e os quatro dedos de sua mão direita que tocavam seqüencialmente o seu queixo por vezes, só compunha com sua cena enigmática e reforçava ainda mais o universo intrigante que sua idéia carregava.

E é claro que não poderia deixar de citar um dos mais brilhantes solistas da noite, por mais quieto e silencioso que estivesse sua presença não deixou de ser gritante. O finado PORQUINHO do o12, que foi brutalmente assassinado, porém não deixou de propor inquietações, questões, provocações e sempre mantendo o seu bom humor.

A lápide, o túmulo e a placa de sinalização que indicava o lugar reservado a não doação, respondia a indignação de quem acha que arte não deve ser remunerada, de quem ajuda a disseminar o senso comum de que arte é igual a voluntariado e de quem entende que arte é menos importante que uma revista pornográfica, pois até elas são pagas por quem as consomem.

O porco solou e comunicou com sua ausência comicamente fúnebre o seu recado. Um propósito com êxito. Parabéns Porco!!!

(de qualquer modo beijo pro Francis e cuidado com o fantasma do porquinho, quaquaraquaquá quem riu quaquaraquaquá fomos nós rsrsrs viva o Coletivo o12 e sua juventude bem humorada, obrigado amigos, espero que as palavras acima possam reverberar e se transformar em algo produtivo para todos nós... somente com o intuito de estudar e exercitar minha percepção... Thiago Alixandre)




Comments

2 Responses to “Thiago para o12 e amigos.”
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Anônimo disse...

Que bonito Thiago!


Eu não assisti a dança.. mas pelos textos, consegui sentí-las...


obrigada!

(Marília)

21 de abril de 2009 01:18
Gamb;arra disse...

Que bonito Thiago!


Eu não assisti a dança.. mas pelos textos, consegui sentí-las...


obrigada!

(Marília)

21 de abril de 2009 01:19